Bolívia: a coca dos cocaleros
Luciana Noronha*
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Feridas abertas
O sol queimava a cara. Um fio de suor escorria da testa da pequena criança ao meu lado. Pendurada nas costas da mãe, o corredor do ônibus não parecia tão mau lugar para a viagem, não fosse o calor exaustivo e o sol, que insistia em invadir as janelas sem cortina.
Parada na estrada para o conserto do velho ônibus, que quebrara novamente, eu observava algumas pessoas, pobres homens, cansados, acostumados ao sofrimento como a tudo o que se acostuma, até por talvez não conhecerem outra forma de sobreviver.
Eu procurava na Bolívia o porquê de tanta pobreza, e as causas da repressão a índios que, morando na região rural do Chapare, só tinham o cultivo da coca como meio sobrevivência. Eu procurava a causa das mortes de tantos sofredores, como estes que eu acompanhava com os olhos.
Nesta procura eu me repartia entre a fisionomia dos pobres moradores do lugar e um livro de História, que insistia em não ser lido pelo sacolejar inquietante do ônibus. O que encontrei foi um passado de opressão e sofrimento, estampado nos rostos e nas páginas do livro, passado que deixou algumas cicatrizes antigas, e principalmente muitas feridas abertas.
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Zona Militar
O caminho até o Chapare é difícil. A poeira seca os olhos e a boca, e as paradas nos postos militares são um exercício de paciência, principalmente para quem carrega criança pequena. Cartazes e cães treinados nos avisam que chegamos à zona militarizada, de onde não se pode sair sem ter a bagagem revistada, farejada ou aberta. “Não apoie o narcotráfico ou narcotraficantes”, avisa o outdoor.
Ao parar no posto, todos se levantam. Já sabem que devem sair do ônibus, para que os militares revistem-no por dentro. Toda a operação parece um grande teatro. As sacolas são apalpadas, o motorista mostra seus documentos. Os oficiais procuram pelos chamados “precursores”, os produtos químicos usados na fabricação de cocaína. A cada povoado, conforme vamos nos aproximando das plantações de coca, toda a operação se repete. Quem vive na região tem de passar pelos postos militares todos os dias. Seus pertences são revistados a cada parada, num processo interminável, que rouba o tempo e a privacidade de quem se tornou um eterno suspeito.
A vida dos moradores certamente havia mudado no Chapare depois da proibição do plantio de coca. Os cocaleiros, que são muitos na região, agora têm de brigar para poder cultivar seu produto. Tudo isso começou com uma convenção da ONU em 1961, que classificou a coca como droga “classe A“ e determinou a sua eliminação dentro de um prazo de vinte e cinco anos, exceto para a produção de um certo “agente soporífero” feito da coca – mais conhecido como Coca Cola – e para medicamentos. Posteriormente, a mesma ONU realizou um estudo garantindo que o consumo da folha de coca não é danoso para a saúde.
Apesar da constatação de que a folha de coca era inofensiva, em 1988 o governo boliviano, pressionado pelos Estados Unidos, criou a lei 1008, antitóxico, que fixou quantias e locais determinados para a plantação da coca no país, considerando ilegal todo o cultivo restante e condenando-o à erradicação. A produção legal só seria permitida nos Yungas – região rural de La Paz – e a quantia determinada, de 12 mil hectares de plantio, é considerada insuficiente pelos plantadores. Do cumprimento desta lei depende o incentivo norte-americano de cerca de 150 milhões de dólares, que todos os anos chega ao governo boliviano.
Depois da lei 1008, a situação se tornou tensa no Chapare. A região foi militarizada, programas de erradicação forçada foram implantados e postos militares instalaram-se pelas estradas. Todos os dias veículos militares saem dos quartéis em direção às plantações. Armados, os agentes responsáveis pela erradicação, militares da Umopar (Unidade Móvel para Patrulha Rural), não estão dispostos a conversa. Conhecidos como Leopardos, eles são famosos pela repressão violenta às mobilizações cocaleiras.
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De perto
Três postos militares mais tarde, conseguimos chegar ao vilarejo de Eterazama, onde Leonilda Zurita – dirigente da Federação Nacional de Mulheres Camponesas da Bolívia – me esperava. Segura, ela logo se pôs a falar da terra, da coca, da luta, coisas de que ela sabe bem. Pegamos um táxi em direção às plantações de coca, onde iríamos conversar com alguns cocaleiros e acompanhar a colheita da folha. No caminho, Leonilda falava da sua coca, contava como escondia sua pequena plantação no meio da floresta para que os militares não a destruíssem. Mesmo assim, já haviam arrancado tudo três vezes. Percorremos quilômetros e quilômetros Amazônia adentro, e finalmente chegamos à primeira plantação. De perto, a coca não parecia perversa. Pelo contrário, ali ela significava a história e o sustento daqueles indígenas.
A história das populações andinas é a história da coca. Ela é consumida na região há pelo menos cinco mil anos, e seu uso é parte das culturas quéchua e aymará, entre outras. Até hoje a folha da coca é considerada sagrada pelos indígenas. Por isso, ela é oferecida à Pachamama – a mãe-terra – como um dos elementos principais da religião e da rica tradição andina, e faz parte de alguns costumes, ainda vivos, como para ler a sorte.
Mas a importância da coca ultrapassa a cultura e a religião. A folha é a base da medicina andina, combate muitos males e ajuda a enfrentar a rotina difícil do altiplano. A folha sagrada aumenta a oxigenação do cérebro, dando mais disposição e ajudando o organismo a se adaptar às grandes altitudes. Além disso, suas vitaminas, aliadas com propriedades anestésicas, ajudam a matar a fome. Por tudo isso, na Bolívia a coca é bastante consumida – faz-se chá ou mastiga-se pura – por trabalhadores braçais, pessoas muito pobres, motoristas de ônibus e táxi, estudantes universitários e turistas.
A folha da coca, não podemos esquecer, também ajudou a compor o primeiro anestésico que o mundo conheceu: a cocaína. Ela foi responsável por uma verdadeira revolução na medicina convencional, mas seu futuro em contato com a “civilização” moderna não foi tão feliz, como ilustra a velha lenda andina, em que Inti, o Deus Sol determina o futuro de um grande mal:
“Quando o branco quiser fazer o mesmo e se atrever a utilizar como vocês essas folhas de coca, acontecerá todo o contrário. Seu suco, que para vocês será força e vida, para vossos amos será vicio repugnante e degenerador. Enquanto para vocês será um alimento quase espiritual, a eles lhes causará idiotice e loucura”.
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Plantadores
No meio da plantação, rapazes descansavam. Entre eles, um saco cheio de coca, que era mascada junto a palavras e risadas. Tinham cerca de vinte anos de idade, e se distraíam na pausa do trabalho, com as bochechas estufadas pelo bolo de folhas secas. Estavam falantes, esquecidos da vida, mas quando chegamos trataram de se aquietar. Ficaram sérios, conversaram um pouco e voltaram ao trabalho na colheita da coca, para mostrar-me como a folha era apanhada. Pouco adiante, no lado oposto à estrada feita de seixos, havia um terreiro, onde a coca secava ao sol. Lá, o plantador Marcos, um pouco mais velho, explicava-me, enquanto revolvia as folhas com os pés, que depois de colhida, a coca precisa secar por toda uma tarde, para então seguir ao mercado do lugar.
Ao lado do extenso terreiro de terra batida, duas pequenas casinhas de palmas sacudiam ao vento. Na sombra de uma delas, três jovens mulheres cuidavam de seus filhos pequenos, que carregavam nos costas de um lado para o outro, como é costume na Bolívia. Andando sobre a coca no chão, o cocaleiro Marcos dizia que os plantadores conservam constantemente algumas pequenas mudas para replantar a coca caso os militares a destruam. E por isso sempre voltam a plantar coca a cada vez em que tudo é destruído.
Deixamos a plantação e voltamos à Eterazama. No caminho, cruzamos com caminhões cheios de militares, que se dirigiam às plantações. Não me esquecerei do olhar de Leonilda naquele momento, olhar impotente frente à injustiça que desfilava, vitoriosa. Seu discurso também espelhava essa injustiça, frente à qual até as mulheres têm se organizado: “Somos migrantes de todos os departamentos da Bolívia, migramos para esta zona para buscar a vida, a sobrevivência. Como não sabemos ler nem escrever, éramos todas pegas à força, agredidas, violentadas. Então agora temos nos organizado para defender a coca, para defender nossos direitos como mulheres e para defender nossa terra. Porque nossa terra é a mãe que nos dá a vida. Como nós, mulheres, damos a vida, temos que defender a terra. E defender a terra é defender nossa coca, que é o único recurso natural e econômico que ela nos dá, porque se não a defendermos, de que vamos sobreviver?”
As famílias cocaleiras são emigrantes de várias regiões do altiplano Boliviano, que fugiram da seca e do frio que destruíam suas plantações, e se instalaram na planície amazônica. Porém, as famílias camponesas hoje têm problemas com o excesso de chuva, que em algumas regiões não lhes permite plantar nada além da coca.
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Promessas
Sentamos num bar escuro, que só contava com a pouca iluminação externa e com a luz irradiada pela TV, a atração do local. Leonilda pôs-se a falar da política liberal do governo boliviano, que havia jogado a soberania do país no lixo e trabalhava contra o seu próprio povo. Ela dava como exemplo o programa de desenvolvimento alternativo, implantado pelo governo com financiamento norte-americano. Este programa deveria oferecer uma compensação individual a quem deixasse de plantar coca, além de fornecer subsídios para que os camponeses a substituíssem por culturas legais, como abacaxi, palmito, e banana. Porém, os camponeses reclamam que não recebem o dinheiro prometido, e que não existe mercado para os produtos alternativos, que apodrecem ou acabam subvalorizados.
Nas palavras de Leonilda: “O tal desenvolvimento alternativo não existe, eu não conheço. Ainda que tenham erradicado minha coca três vezes, nunca me pagaram o que teriam que pagar, a compensação individual de 2.500 dólares. O dinheiro do desenvolvimento alternativo só tem vindo aos bons funcionários do governo, para os bons soldos, bons carros, bons chalés, que eles têm a sua disposição, mas esse dinheiro vem em nome da coca, e sequer chega a nós. Além disso, não temos mercado. Chegamos a vender dez abacaxis por um boliviano (R$0,40)! Então não resta outra opção aos homens e mulheres a não ser organizar-se, brigar, para que possamos ter a nossa coca”.
Enquanto Leonilda falava, avisto um homem que vem em nossa direção, mancando. É Feliciano Mamani, dirigente cocaleiro e secretário geral da federação do Chapare. Leonilda revela que Feliciano manca porque levou um tiro na perna durante uma manifestação de plantadores. A bala saiu de um fuzil militar e supostamente estaria destinada a Evo Morales, principal líder do movimento cocaleiro, que estava ao seu lado.
Feliciano senta-se conosco. Leonilda continua falando, mas ele apenas escuta. Quando pergunto a ele sobre o governo boliviano, seu semblante se transforma, e ele começa a falar: “Nós, como organização cocaleira, queremos participar da luta contra o narcotráfico. Mas o governo não quer que a organização participe. Queremos fazer um estudo da quantidade necessária de coca, para que abasteça o consumo legal e pare por aí. Pelo menos meio hectare por família, e tudo seria controlado para que não houvesse narcotráfico. Mas o governo não quer. A sua política é um pretexto para tirar-nos a nossa terra, nossos recursos naturais. Toda a política serve para buscar este pretexto, então, nos deixam plantar, depois eles cortam a coca e com esse pretexto seguem avançando a militarização, as privatizações, as concessões. Mas quando nós pensamos em controlar, o governo diz não. E também quando vem o dinheiro para o desenvolvimento alternativo, um milhão de dólares, e nós queremos participar, não nos deixam”.
A voz de Feliciano, impregnada de revolta, chegava a emocionar. A raiva, a sensação das mãos atadas e a violência tornaram aqueles cocaleiros cada vez mais fortes, mais coesos, eles brigam como quem já não tem nada a perder. A luta pela cultura da coca traz em si muitas outras lutas: pela sobrevivência, pela ideologia, pela terra, pela cultura, pelas raízes. Muito mais que discursos, ela era a vida daqueles camponeses. Já era quase noite. Fomos ao mercado de coca.
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A rota
O mercado do povoado de Eterazama estava agitado. Crianças corriam pra lá e pra cá no galpão, em meio aos grandes sacos de coca, que estavam sendo pesados numa balança de cordas presa ao teto. Cada saco deveria conter cinqüenta libras de folhas. Os mercados rurais, como de Eterazama, recebem as folhas diretamente dos plantadores, e por isso são chamados mercados primários. Dali, toda a coca segue para a cidade de Sacaba, vizinha à Cochabamba.
Grande parte da coca que é plantada ilegalmente no Chapare tem como destino o mercado tradicional da Bolívia. Por ser mais barata, a coca desta região é a mais consumida pelos bolivianos, o que garante o legalizado hábito da mastigação da folha, ou “acullicu”, como é chamado pelos indígenas. Apesar de ser considerada ilegal, a coca plantada no Chapare pode ser comercializada legalmente, sob a tutela do governo, por meio do mercado de coca de Sacaba. O funcionamento legal do mercado faz parte de uma conquista do movimento cocaleiro, que convenceu o governo a manter o mercado em funcionamento, depois que a sua interdição provocou a mobilização de milhares de plantadores em 2002.
Para ser vendida legalmente, a coca do Chapare deve sair do mercado de Sacaba, responsável pela distribuição da folha. Os plantadores que transportam coca para este mercado têm de ser devidamente cadastrados pelo governo, e os seus compradores têm de ser licenciados. A expedição da licença e a fiscalização da venda da coca são feitas respectivamente pelos fiscais do Direco (Direção Nacional de Controle da Coca) e Digeco (Direção Geral do Centro de Folha de Coca), órgãos do “ministério de governo” que controlam a circulação da folha dentro da Bolívia. Além disso, a coca ilegal apreendida por esses órgãos é queimada nos galpões do próprio mercado.
A quantidade comprada pelos revendedores no mercado de Sacaba também é restringida, mas não há garantia de que a coca adquirida realmente vá para o consumo tradicional. Muitas vezes, ela é desviada para o narcotráfico neste trâmite, sem que os plantadores tenham qualquer envolvimento ou lucro no processo. Tudo o que o governo faz no sentido de impedir que isso ocorra é fiscalizar. Porém, a grande maioria dos postos militares de fiscalização estão concentrados no Chapare, de onde esta coca já saiu faz tempo.
Atualmente existem somente dois mercados legais de distribuição de coca em toda a Bolívia, um na região de La Paz ( responsável pela distribuição da coca plantada na região) e outro em Sacaba, que recebe a coca vinda do Chapare. Eu havia conhecido o mercado de Sacaba – que é o mais antigo da Bolívia – há poucos dias, onde soube que são vendidos cerca de trezentos quilos de coca nas segundas feiras, dias de maior movimento.
Lá em Sacaba, ao lado do galpão onde a coca era vendida, carros e ônibus queimados eram a lembrança concreta da revolta cocaleira ocorrida em janeiro de 2002, quando o governo ameaçou fechar o mercado. Neste episódio, quatro cocaleiros, três soldados e um policial foram mortos. Quatro dias depois, cerca de sessenta dirigentes camponeses foram presos, sem presença de provas ou direito à defesa. Feliciano Mamani e Leonilda estavam entre os detidos. Ainda na mesma semana, com os dirigentes do movimento cocaleiro na cadeia, Evo Morales é expulso do Congresso, acusado de valer-se de sua imunidade parlamentar para incitar crimes e a revolta em Sacaba. Não tendo o direito à defesa, previsto na constituição boliviana, Evo Morales entra em greve de fome. Sem resultado.
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Movimento
Mas a história do fechamento do mercado de Sacaba é apenas uma, dentre as muitas histórias de repressão que Leonilda e Feliciano têm para contar. Mobilizações cocaleiras como a que ocorreu no mercado são comuns na região de Cochabamba. Elas visam chamar a atenção do governo para a situação dos plantadores de coca em meio a sua erradicação. Essas manifestações freqüentemente são respondidas com a repressão violenta do exército, e protestos que deveriam ter caráter pacífico, acabam em tiros e mortes, tanto de plantadores como de policiais e militares. A diferença entre elas é que os responsáveis por assassinatos de civis – que são a maioria das vítimas – não são punidos, enquanto os manifestantes são processados e presos pela morte dos oficiais, mesmo sem provas.
Leonilda, naquela tarde em Eterazama, falou sobre os dois processos por assassinato que carrega. Em um deles ela é acusada da morte de um tenente e de sua mulher, durante um bloqueio de estradas. Leonilda estava na República Tcheca naqueles dias, e conta que mesmo tendo apresentado seu passaporte, visto e os carimbos da imigração, continua sendo acusada. E protesta, inconformada: “Nos jogam a culpa pelas mortes, mas os que matam nossos irmãos nem sequer estão na cadeia, e a nós nos prendem. A injustiça, na nossa Bolívia triunfa, baila, porque a justiça é para os ricos, e a injustiça é para nós”.
Atualmente o movimento cocaleiro é responsável pelas maiores mobilizações camponesas da Bolívia, organizando bloqueios das principais estradas do país, marchas de homens e mulheres plantadores, que percorrem a pé centenas de quilômetros, e até greves de fome. Mas alcançar toda esta mobilização popular não foi simples. Nos anos setenta – durante o governo ditatorial do general Hugo Banzer – a organização camponesa foi atrelada ao governo, e alguns de seus líderes chegaram a fazer parte de ministérios. Mas com o tempo o movimento foi conquistando autonomia administrativa, se expandiu e hoje está dividido em seis Federações, todas pertencentes ao departamento de Cochabamba.
O movimento cocaleiro – que hoje reúne mais de quinhentos sindicatos por todo o trópico cochabambino – foi repartido em federações em função das grandes distâncias entre as províncias. No entanto, para que o conjunto não se dispersasse e adquirisse unidade administrativa, em 1990 criou-se o Comitê Coordenador das Seis Federações, presidida por Evo Morales há cinco mandatos consecutivos.
A região do trópico de Cochabamba é composto por províncias, e o Chapare é uma delas. Assim, ele agrega toda uma federação de sindicatos cocaleiros. Com o surgimento da lei 1008, que proíbe a plantação da folha de coca na região, a federação chaparenha se fortaleceu. Apesar de abarcar uma região extensa, os sindicatos são bem articulados e trabalham juntos, por meio de encontros e assembléias.
As mulheres cocaleiras também são muito bem organizadas. Seu movimento tem autonomia, além de articular-se com as federações. Desde 1980, existe a Federação Nacional de Mulheres Camponesas da Bolívia “Bartolina Sisa” (Bartolina foi uma indígena libertária da época colonial), hoje liderada por Leonilda Zurita. Mas o movimento realmente tomou fôlego mais tarde, em 92, quando se decidiu constituir a Federação de mulheres cocaleiras, que desde então dedica-se a lutar pelas causas da coca, da terra e dos direitos humanos.
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Um partido
Em 1994 a Confederação Camponesa da Bolívia decide criar seu próprio instrumento político, que reúne centenas de organizações sindicais do país. Institui-se então, o Movimento ao Socialismo, MAS, que tem sua sigla legalizada para as eleições de 97. Nesta primeira eleição o partido consegue eleger quatro deputados, entre eles o líder cocaleiro Evo Morales, com recorde em número de votos. Depois disso, o MAS foi incorporado pelas seis federações do trópico de Cochabamba, que decidiram dedicar-se à institucionalização do movimento. Participaram das eleições municipais, elegendo prefeitos em 80, dentre um total de 230 cidades. Fortalecido por esta etapa, o MAS preparou-se para concorrer às eleições presidenciais em 2002.
Evo Morales então se candidata à presidência pelo MAS, e recebe 21% dos votos, menos de 2% de diferença para o primeiro colocado, Gonzalo Sanches de Lozada do partido MNR (Movimento Nacionalista Revolucionário). Evo vai para o segundo turno, que é indireto (o congresso é quem vota). Como o MAS não conta com a maioria no congresso, além de não fazer alianças, Evo perde a eleição.
Apesar de ser considerado um partido, o Movimento ao Socialismo não tem uma organização semelhante aos demais. Desde que foi idealizado, o MAS aspirou ser diferente. Tanto é que os seus membros mesmos o chamam de “nosso instrumento político”. Ele nasceu para ser uma forma de os movimentos sociais chegarem ao poder pelas vias legais. Eu havia conversado sobre o assunto com Evo Morales, (principal figura do partido MAS), há uma semana, e sua fala continuava na minha memória: “Nós não fazemos alianças com partidos, e sim com movimentos sociais, porque o MAS representa os movimentos sociais. Ele não tem uma estrutura assim como o PT, como uma empresa privada. Como vamos fazer alianças com outros partidos se não coincidem os nossos princípios?”
Hoje o MAS não representa apenas o movimento cocaleiro, ou um grupo de sindicatos. Com 27 deputados e 8 senadores eleitos, a chamada “bancada do povo”, reúne líderes dos mais diversos movimentos sociais bolivianos, de grupos indígenas a trabalhadores mineiros e fabris. A diversidade de culturas representado pelo MAS agrega tantos grupos que se fez necessária no parlamento a presença de tradutores guaranis, aymarás, quéchuas, entre outros. Estes grupos, até então excluídos da política boliviana, hoje tentam exercer a “democracia participativa” pregada pelo partido, que é idealizada horizontalmente, com respeito às decisões das bases populares, em que os representantes são eleitos para servir o povo.
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Vila Tunari
Anoitecia no pequeno povoado de Eterazama. Resolvemos voltar à Vila Tunari antes da noite fechar. Fomos até o pequeno posto rodoviário, bem ao lado do mercado onde estávamos. Parado na plataforma, um táxi. Seis pessoas aguardavam o carro “encher” para sair. Nos apresentamos para a viagem. Leonilda avisou que a viagem seria um pouco desconfortável, porém bem mais barata que a corrida em um táxi “particular”. Nos enfiamos dentro do carro, três na frente, quatro no banco de trás, dois no porta malas. Assim, a viagem que havia custado 80 bolivianos na ida à Eterazama, num táxi comum, saiu na volta por 3 bolivianos (pouco mais de um real), para duas pessoas, no “transporte público” local.
Paramos no posto militar. Revistam-se as bolsas, apresenta-se os documentos, segue-se a viagem. Em seguida descem dois passageiros, sobem mais dois. Uma cholita, indiazinha bem moça, entra com seu bebê preso às costas pelo tradicional pano colorido. Observo-a entrar no porta-malas, sem se incomodar. O constante chacoalhar do carro velho na estrada de seixos faz com que a criança bata a cabeça contra o vidro por vezes seguidas. Qualquer criança abriria a boca a chorar. Mas o bebê também não se incomoda. Me convenço de que o boliviano é, antes de tudo, um forte. Naquela noite, depois de tudo o que havia visto, fui dormir sentindo uma sensação estranha, misto de vazio e de vergonha.
No dia seguinte, fomos à prefeitura do município de Vila Tunari, à procura de Felipe Cáceres Garcia. Ele é prefeito do município e um importante defensor do movimento cocaleiro, eleito pelo partido MAS. Felipe não estava. Tinha ido à reunião do partido, mas o seu substituto, o oficial maior de Vila Tunari, Andrés Checa Vacaflores, se disponibilizou a conversar. Andrés recebeu-me em sua sala, e começou a falar sobre as crianças do Chapare, que estão crescendo em meio a soldados e armas: “Está sendo criado uma espécie de trauma nas crianças. E não só nas trancas (postos militares). Quando começam a erradicar a coca, às vezes a primeira coisa que fazem é ocupar as escolas. E muitas vezes há conflitos em frente às escolas, e as crianças são espectadoras diretas. Parece que nessas crianças vêm nascendo uma espécie de rebeldia, uma mentalidade de rechaço ao exército, aos soldados. E isto nos preocupa, porque com o tempo essas crianças, que hoje em dia estão se desenvolvendo, podem se tornar pessoas ressentidas com a sociedade”.
De fato, a militarização que o Chapare enfrenta não é o melhor ambiente para o desenvolvimento de uma criança. Todo o tempo ouve-se denúncias de estupros e agressões por parte dos soldados responsáveis pela erradicação. Sem contar os assassinatos, de que os cocaleiros já perderam a conta desde a implantação da lei antitóxico, em 1988. Leonilda Zurita assegura que já passam de cem os mortos pelo exército.
Mas toda esta violência não é mérito somente do governo boliviano. Os cocaleiros apontam a presença de militares norte-americanos da Dea (Drug Enforcement Agency) espalhadas pelo trópico. E o número de oficiais gringos vem aumentando a cada ano. Andrés Flores esclarece que os militares da DEA estão em maior número no quartel do Chimoré (província vizinha), de onde comandam diretamente a erradicação e passam instruções aos militares.
Andrés afirma que os soldados norte-americanos recebem soldos altíssimos, provenientes do dinheiro que teoricamente seria destinado ao programa de desenvolvimento alternativo. Por isso, o movimento cocaleiro reivindica o direito de administrar este programa, e Andrés Flores explica o porquê: “Hoje a sociedade civil não assume para si o desenvolvimento alternativo. É a cúpula que maneja. E maneja somas milionárias, que nos jornais se vê, mas nos fatos aqui não se vê, pois a maior quantidade desse dinheiro se esvai. Se fizermos uma comparação entre o governo nos municípios, de participação popular, e a administração federal do desenvolvimento alternativo, quem faz mais investimentos (mesmo com menos verba) são os municípios”.
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Mesma História
A Bolívia foi um país escravocrata até a década de 1950. Somente após o ano de 1952 é que 85% da sua população, de origem indígena, passou a ter direitos políticos e a participar da pequena economia boliviana. Antes disso o país já havia perdido mais da metade do seu território para os países vizinhos, entre eles o Chile, que tomou a sua única saída para o oceano; e o Brasil, que ganhou de bandeja, num acordo no mínimo questionável, o território correspondente ao atual estado do Acre (A Bolívia entregou o Acre ao Brasil em troca de uma saída ao rio Paraguai, que supostamente facilitaria seu acesso ao mar. Logo descobriu-se que o trecho do rio não era navegável por grandes embarcações).
Indignado com a impossibilidade de alcançar o mar, o governo boliviano, em 1879, envolveu-se em um conflito sangrento contra o Paraguai pelo território do Chaco, que deu nome à guerra. Para a Bolívia, o Chaco significaria uma possível saída ao Oceano Atlântico. Na verdade, estava em jogo um território riquíssimo em petróleo e minérios, disputado entre as petroleiras Shell e Standart Oil. As duas grandes empresas insuflaram a guerra e financiaram Paraguai e Bolívia, respectivamente, a fim de conquistar, com armas alheias, o direito de sugar o sangue negro que jorrava no Chaco, e que os pequenos sul americanos ainda não enxergavam. A Bolívia perdeu mais esta guerra, que resultou em uma gigantesca dívida externa e numa perda humana lamentável, apesar de invisível aos olhos do governo. O país até hoje não tem saída para o mar.
Hoje em dia, os interesses particulares ainda falam mais alto na condução da política boliviana. A administração do ex-presidente Gonzalo Sanches de Lozada, do MNR, foi desastrosa com a política social. Os números levantavam a saia do governo e mostravam, no período anterior à sua queda, a aprovação de apenas 9% ao presidente, acompanhados por índices de exclusão social crescentes. Lozada esteve tempo o bastante no poder – esse era o seu segundo mandato – para concluirmos sua inabilidade com contas e políticas públicas, contrastantes com uma rara habilidade para finanças pessoais.
Historicamente os governantes bolivianos carregam o costume de conduzirem o país olhando para os seus próprios umbigos. Foi assim desde a colonização espanhola, e de lá para cá pouca coisa mudou. O poder continua na mão dos mesmos, o colonialismo apenas veste novos trajes. No lugar da escravidão, desemprego ou subemprego. No lugar da prata, o gás. Mas a pobreza continua a mesma. Felizmente o inconformismo e a coragem do índio boliviano também continuam presentes. E é isso o que permite a um povo massacrado como esse lutar por mudanças.
Gonzalo Sanches de Lozada não negou a tradição governamental. Conduziu a Bolívia tendo em vista suas finanças e sua grande empresa de mineração, a Comsur. Em seus dois mandatos, acabou por afundar o país na mais completa dependência externa, privatizando suas empresas estatais, suas minas, seu petróleo e seu gás. O ex-presidente abriu escancaradamente o país às empresas multinacionais, o que gerou ainda mais desemprego e exclusão social. Hoje quase 30% da população do país está desempregada. Mas todas estas providências não foram em vão. Lozada fechava bons negócios à Comsur e aos detentores de ações da sua empresa, como a inglesa Rio Tinto Zink (a maior vendedora de cobre do mundo) e o Banco Mundial.
As relações promíscuas entre o ex-presidente e as empresas multinacionais explicam muitas decisões desvantajosas ao país que foram tomadas durante o seu governo, inclusive a política de erradicação das plantações de coca. Ao aprovar a lei 1008, conhecida como lei antitóxico, Lozada obedecia a vontade do governo norte-americano, e por extensão, de grandes empresas transnacionais. O Chapare é uma região bastante rica em petróleo, e algumas petroleiras já olham com gula para estas reservas, ao considerarem as vantajosas políticas de exploração dos recursos naturais na Bolívia.
Atualmente as empresas estrangeiras exploradoras de gás natural e de petróleo não pagam nada ao governo boliviano, a não ser um imposto de 18% sobre o preço do recurso bruto.
Segundo Feliciano Mamani, “a chamada luta contra o narcotráfico na Bolívia tem a intenção de privatizar a terra e os recursos naturais. Ela é uma falsa guerra que a embaixada norte-americana planejou para controlar cada vez mais o governo boliviano, e isso é o que está acontecendo. Aqui é onde mais há petróleo, há postos da UMOPAR, e estão sendo criados quartéis. As zonas petrolíferas estão sendo militarizadas”.
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Negociações
Os cocaleiros pedem ao governo boliviano, principalmente, a interrupção da erradicação forçosa das plantações de coca, para que seja feito um estudo sério da quantidade de coca destinada ao mercado legal boliviano, que hoje é de 12000 hectares, considerados insuficientes pelos plantadores. Eles também pedem o direito de auto-administrarem o programa de desenvolvimento alternativo, prometendo a fiscalização do cultivo e da comercialização da coca, para que não se desvie ao narcotráfico.
Os cocaleiros argumentam que se a coca fosse industrializada, não escoaria para o narcotráfico e geraria desenvolvimento para o país. A industrialização da coca é uma das principais bandeiras do movimento, como explicou Leonilda Zurita em Eterazama: “Temos dado muitas propostas ao governo, porque a nossa coca é medicinal, com ela se fazem muitos remédios, e além disso se fazem vinhos de coca, se fazem xampus de coca, sabões de coca, doces de coca, chicletes de coca, pasta dental de coca, e outras coisas mais, o que nós mais queremos é industrializar esses produtos, mas ao governo não interessa”.
Muitas tentativas de diálogo entre o Movimento Cocaleiro e o governo foram feitas, mas ambos nunca conseguiram chegar a um acordo razoável. O governo de Gonzalo Sanches de Lozada e o movimento encabeçado por Evo Morales se mostraram, ambos, inflexíveis, e as negociações sempre fracassaram. Enquanto os cocaleiros colocam a negociação nos termos: ou o governo aceita todas as nossas exigências, ou vamos continuar os nossos protestos; o governo de Lozada, por outro lado, tem adotado duas posturas contraditórias: ou não aceita frear a erradicação forçosa, nem enquanto procuram-se alternativas, ou mostra-se disposto a negociar e depois volta atrás. Por isso pode-se afirmar que até hoje ambas as partes não saíram do lugar rumo a um acordo satisfatório.
As negociações pacíficas entre governo e cocaleiros geralmente são mediadas por instituições como a Defensoria do Povo, a Assembléia dos Direitos Humanos e a Igreja Católica, entre outros setores sociais. Praticamente todos os anos as negociações se reiniciam por volta de novembro – época das decisões sobre o apoio à destruição da coca junto ao governo norte-americano – e geralmente culminam em bloqueios de estradas e conflitos violentos, que se arrastam pelo ano vindouro.
Porém, estas negociações estão deixando de ser assunto exclusivo cocaleiro, e cada vez mais têm envolvido outros movimentos e setores da sociedade civil. Este processo deslanchou com a convocação por Evo Morales do “Estado Maior do povo Boliviano” no começo deste ano, que pede a união de diversos movimentos sociais em prol de uma lista de reivindicações em comum. Este movimento conseguiu a adesão, dentre outros movimentos, da poderosa Cob (a Central de Trabalhadores Bolivianos, liderada por Felipe Quispe) e a CSUTCB (Confederação Sindical Única de Trabalhadores Camponeses). No início deste ano, o ”Estado Maior do povo boliviano” somou às suas exigências o pedido de renúncia do ex-presidente Gonzalo Sanches.
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Pensamentos e bananas
Depois da visita à prefeitura de Vila Tunari, poderíamos seguir a La Paz, capital da Bolívia. Pegamos nossas malas e procuramos o terminal rodoviário da cidade. No caminho, pela avenida principal, avistava-se uma grande carreira de frutas estendidas ao sol e algumas vendedoras. Desanimadas, elas conversavam entre si. Quando me aproximei, muitas ofereceram seus produtos, que visivelmente não seriam vendidos tão cedo, já que além de mim, ninguém se interessava pela compra das bananas, laranjas e abacaxis derramados aos montes no chão. Perguntei quanto era uma grande penca de bananas. “É um boliviano”, respondeu a senhora, empurrando-me o produto. Compramos. Mesmo sabendo que nunca agüentaríamos comer tantas bananas. Naquele momento, carregávamos nas mãos a prova do fracasso do tal desenvolvimento alternativo, produto que se dava de graça na beira das estradas de Vila Tunari.
Iríamos a La Paz, onde fica a sede do governo boliviano, então comandado por Gonzalo Sanches de Lozada. Parada, eu apenas pensava. As referências que eu tinha se embaralhavam na minha mente. O pensamento indígena era demasiado evidente nas atitudes e idéias daqueles revolucionários. Mas a sua compreensão fugia de mim. Eu me confundia ao pensar na miséria das pessoas que eu conhecera. Não entendia o limite entre pobreza e cultura indígena, não concebia a brava resignação com que eles enfrentavam a pobreza. Aquilo não cabia na minha cabeça, talvez por fazer parte de uma cultura tão distinta.
Enquanto eu pensava nestes mistérios, um ônibus passou. No itinerário, o destino que deveríamos seguir. Rapidamente fizemos sinal para que o veículo parasse. Subimos a bordo, e percebemos que todos os lugares estavam ocupados. O ônibus já seguia viagem, e eu chamei o cobrador para que me explicasse porque ele nos havia deixado subir, já que não havia assentos disponíveis. O senhor gentilmente respondeu: “Mas há lugares”. Aproximou-se de uma índia já senhora, abanou as mãos e ela imediatamente abandonou seu lugar, sentando-se ao chão. “Pronto, pode sentar”, disse o senhor, virando-me as costas. A viagem continuou.
* Jornalista pós-graduada em Jornalismo Literário pela ABJL (Academia Brasileira de Jornalismo Literário) em São Paulo (SP).
