O dono da rua
Juliana Damante *
REPENT
REPENTE
REPENTE
Grafadas com letras de forma, de uma tinta branca respingada ao chão, estão as três palavras no poste. Este, por sinal, bem em frente à Clínica de Medicina Nucelar, a Cendicamp – primeira Central Diagnóstica de Campinas – contém pendurada uma placa azul marinho de rua, bem desgastada pelo tempo, na qual está escrito: Dr. Barros Monteiro. Falta, nítida, a palavra rua. De três quadras. E só. Sem ponto. Quem será que se apoderou do poste? Assim, insistindo três vezes em sequência, uma em cada lado curvilíneo (se é que poste tem lado), como se fosse possível descascá-lo e em cada rodela saísse um REPENTE. Atravessando a rua, no bloco da sarjeta em frente à casa amarela de esquina, nº 121, foi escrito com o cimento ainda fresco: REPENTE. Na transversal, rua Dona Rosa de Gusmão, outro poste e mais três REPENTEs. Três em um. Lá tem REPENTE com E no final, com I no final, e T mudo.
Na rua Dr. Barros Monteiro não tem grileiro mas tem muitos terrenos ocupados. Tem cheiro de bife da casa nº 363 na hora do almoço e aroma de eucalipto após a faxina ao fim da tarde, muitos carros em frente à clínica, uma árvore que morava na esquina com a av. Brasil mas foi cortada no dia 19 de junho de 2009, uma sexta-feira. Seus pedaços ficaram no chão até a segunda-feira seguinte, quando o caminhão da prefeitura veio recolher a ossada final para não deixar vestígios de homicídio. Ninguém chorou. Nem o céu desabou. Construíram então um estacionamento de 100 lugares para a Diagmed, outra clínica do outro lado da av. Brasil, no lugar do terreno baldio.
No bairro Jardim Guanabara é assim, tem residências de portão com grade que dão de olho para a rua mas também tem muito comércio. Durante a manhã, no horário de pico, das 8h às 8h30, trabalhadores descem nos pontos de ônibus da av. Brasil, um antes do Balão do Timbó, outro em frente ao falecido Shopping Jaraguá, e mais um na esquina com a Dr. Barros Monteiro, não perdem de vista o M do Donalds, e entram na rua de três quadras, mão que vem, mão que vai. Seguem nela, geralmente na calçada par pois do outro lado, ímpar, vans, carros e a fila na clínica dificultam a passagem. O rumo é o Jardim Chapadão, na verdade, mais conhecido como Castelo.
No Castelo tem até torre, torre que dá vista para todos os lados da cidade. Por ser o ponto mais alto de Campinas, o vento chega a cortar em noite fria e refrescar em dia quente. Antigamente, era apenas uma caixa d´água gorda de 250 mil litros cuja existência servia para abastecer os bairros ao redor, mas hoje abriga os estúdio da Rádio Educativa, 101,9 FM, e também virou atração turística para os curiosos olhos dos cegos do castelo, os buscadores de outros pontos de vista.
Para quem sobe e quem desce rumo ao começo de um dia de trabalho, ele fala:
- Bom diaaaa! Ooooi! - e acena.
Ele?
O dono da rua. O Seu Repente, doze anos de casa, R$ 20 a R$ 25 de notas e moedinhas tilintando nas mãos por dia de trabalho, fora os fixos que recebe por mês. O colete azul royal grafado em amarelo nas costas avisa: VIGILANTE. Boné no mesmo tom, caído por lado, tampa o cocuruto do sol ardente, mas não cabe na cabeça. Fica meio de lado, pendendo para a esquerda, da mesma forma que o corpo saltitante ao andar. O par de tênis bem desgastados levam uma marca já apagada, a última composição ali a ter importância. Ambos se acomodam bem tortos no pé, mais para dentro do que para fora.
O ganha-ganha na rua vem dos fixos e dos livres. Tem quem pague uma “ajuda” por mês de R$ 50, mais ou menos. Vem da produtora cultural, da igreja, da clínica e de mais dois carros. O resto vem da luta diária mesmo, que é dizer bom dia olhando nos olhos antes de responder qualquer pergunta. Para ele, antes de qualquer diálogo, tem que ser assim.
Quase uma hora da tarde, e ele apenas com uma nota de R$ 2 na carteira. Mostra e diz:
- A carteira não cabe gente! - inverte a ordem da fala e ri - Às vezes é preciso um ajudante sabe...
Repente, Serpente, cá-gente, de repente, indigente, indaga a gente, imponente, intransigente, altamente carente, sorridente, contente, calorosamente.
- ÔOOOô Seu Repente! - dizem os que já o conhecem, ao passarem por ali, caso contrário, buzinam e acenam, mesmo de vidros fechados.
E ele sempre responde:
- Tô contente!!! - e solta aquela risadinha cheia de dentes brancos, olhando para baixo e colocando as duas mãos na cabeça. Quando não as levantam para o ar mesmo, com as palmas viradas uma de frente para as outras, louvando o dia.
O ponto de parada do Seu Repente, nos raros momentos em que fica sentado, é uma cadeira de plástico branca, entre a Direção Cultura (produtora cultural), e outra casa verde de tijolo à vista de nº 363. Em frente à campainha e à caixa de leitura de água da SANASA, às vezes, ficam apenas a cadeira e um amontoado de panos de várias cores, bem antigos pelo tempo.
Logo de manhã, por volta das 9h, começa o expediente em dia de sol. Sempre de segunda à sexta-feira. Cadeira colocada, despeja o conteúdo têxtil de dentro de um saco de plástico bem grande, pega uns dois ou três panos e começa a estapear o vento para as folhas voarem longe e o ambiente de trabalho ficar limpo. Organizada a bagunça, é hora de começar. Quem não o vê de longe, sassaricando o bom dia, fica intrigado com a movimentação, o barulho e as folhas rodopiando sozinhas.
Tudo limpo?
Café no copo em uma mão, pão com manteiga dentro de um saquinho na outra. A primeira refeição do dia Seu Repente ganha do pessoal da clínica de Medicina Nuclear ou da Igreja de Cristo Guanabara onde costuma deixar seus pertences, cadeira e panos. Um olho no gato, e outro na raposa. Tudo junto. Ao mesmo tempo. Vai pegando pano e distribuindo por cima dos carros estacionados. Bem em cima do volante quente, de repente, com sol al dente. Mastiga daqui, engole de lá. O importante é não fica parado.
- O pessoal me pergunta por que o pano em cima do carro - diz ele. - Aí eu respondo: o pano é pra eu oiá e no carro que é prá num robá - brinca.
E assim ganha toda a clientela no bairro. Gente nova que chega e gente velha que vai. Não pede dinheiro para ninguém, apenas vai delimitando território, e na hora da saída, cordialmente, abre a porta para o motorista, fecha, retira o pano e espera. Quem quiser, “contribui”. Essa é a palavra. Sinaliza para o carro poder sair, Apita Apito Preto de árbitro em começo de jogo, e acena:
- Vai com Deus meu filho! - e sorri mais um dia, dizendo em voz meio embutida.
Na mão dupla de vais e vens que é a Dr. Barros Monteiro, Seu Repente dispara a correr atrás de todos que estacionam. A mulher bem vestida do KA dourado de placa DBX-7589 para sempre ali, na esquina com a rua Dona Rosa de Gusmão, em frente à casa amarela nº 121.
- Aquela ali, oh, é Dona Nilza, ali, ela ali também me paga por mês... ai se ela me pagasse hoje - e sai correndo, vai até o carro, bate a porta para ela, acena.
O carro sempre fica estacionado em frente à guia dessa mesma casa amarela. Outra casa amarela.
- Só tem casa velha aqui...Tudo madura madura, amadurecida! Aquela ali ó, tá verde ainda! - e solta aquela risada de deboche, que vem junto de um “tch”, daqueles quando solta-se o ar pela boca.
Dia ensolarado sempre é dia de trabalho, diferente dos chuvosos. Passa daqui, passa para lá. Vem. Volta. Corre. Discorre sobre o mundo de uma forma repentista, cheia de graça, embala versinhos o tempo todo nos diálogos. A pergunta na cabeça de quem conversa com ele, sempre vem à mente no formato de um balãozinho de nuvem, como nas histórias em quadrinhos: será verdade ou mentira o que o Seu Repente está dizendo? Enquanto se olha para os olhos cansados, nota-se que o boné azul, escrito em letras garrafais – WRANGLER – não encaixa na cabeça. Talvez, lá dentro, existam milhares de dores e de sabores de um passado como servente de pedreiro, uma ex-mulher e a marvada cachaça culpada dos momentos como repentistas de bar em bar. Ele a deixou em 1990, desde então, não é mais o mesmo Repentista, de bar em bar.
- Minha vida é uma história. O povo fala que eu preciso sê mais sério. Pra que? - pergunta para si mesmo, com o olhar longe longe, lá nas dores que hoje tiram um sorriso.
Na alegria e na tristeza, na dor e na saúde
Mas a semana está ensolarada e o dono da rua não está presente. No dia 13 de julho de 2009, uma segunda-feira, Seu Repente respondeu à Patrícia Flores, no intervalo de café do pessoal da produtora cultural:
- Feriado de doença foi o meu. Minha mulher*. É. Tá com pneumonia, tá internada. Olha. Que coisa que foi, nunca vi minha mulher daquele jeito. Ela ta ali na...Santa Casa. Eu só gastei, gastei tanto de ônibus, mas tanto.
Trajeto para casa: dois ônibus, um para ir outro para voltar.
Bairro: Campina Grande, perto do Itajaí.
Onde: Zona periférica de Campinas, perto de um córrego
Zona de risco.
Em casa: mulher desempregada, filha de 6 anos.
Fora de casa: outra filha de 11 anos.
Mas cadê? Onde está o cheiro de cigarro de palha a rodear os quarteirões da Dr. Barros Monteiro? Não tem versos, não tem cadeira, não tem panos sobre os carros. Não tem apito, não tem chama-chama, corre-corre, nem o bom dia para todos que passam, nem informações sobre lugares para os mais apressados. Com a esposa doente, uma semana de cinco dias, trabalhou apenas dois. A narração dele a respeito é dolorida. É a falta de dinheiro, é a estrutura física do SUS, é atendimento, é distância, é falta de passe para o ônibus. Transferiram a esposa para o hospital da PUC-Campinas, Celso Pierro, e quando chegou lá tomou um susto. Nesse dia 16 de julho, quinta-feira, depois de três dias sem trabalhar, chegou até de sapato preto e camisa branca por baixo.
- Cheguei lá pra visitar minha mulhé aí me disseram que ela tinha sido transferida para outro hospital. Agora tem que confiar em Deus e esperar pra da certo.
- É, Seu Repente..! - suspiro eu.
- Só Deus pra alegrar a gente...- responde ele.
O Vigilante é repentista, do tipo “Castanha e Caju”, sabe? Ele diz ao contrário do que todos dizem. Castanha e Caju, ou Caju e Castanha, a ordem não altera o dito. O que fica é o entendido. Mas desde 1990 parou com a cachaça e não teve condições de continuar com esse negócio. Esses versos vêm desde Minas, lá para as bandas de Medina terra natal, divisa com a Bahia.
De lá para cá, aprendeu muito,
fez de tudo,
conheceu o mundo.
- Ai moça, tenho vontade de ir na Praça é Nossa contá piada...! Noss...- engole o “a”, coloca a mão na boca, olha para o lado, fica sem soltar o fôlego de sonhar acordado.
E foi assim que puxou um papo seguido de um silêncio. De que um dia, ali perto, em frente ao Bosque dos Alemães, onde ficava para guardar os carros antes de descer para trabalhar na Dr. Barros Monteiro, encontrou Carlos Alberto de Nóbrega. Ele tinha ido almoçar no restaurante Nono Miquele. Abordou-o, disse que era repentista e...nada.
- Esse povo tem medo da gente...
Mas tem gente que não tem medo de gente. Que sente e entende. A voz alta e a risada debochada de Patrícia já presenciaram cenas inesquecíveis de contar e chorar de rir, assim faz ao relembrar. “Ah tem várias”, diz. Teve um dia que após o almoço dela com o pessoal do escritório, estavam todos voltando em ritmo de marcha lenta e o Seu Repente chegou chegando para contar sobre um acidente.
Reprodução espontânea dela sobre o fato ocorrido (cena 1):
- Nooooooooooooooooooooosssa. Mininnnnnnnnnnnnnnnaaaa. Cê viu o acidente aqui que aconteceu aqui na frente? - perguntou o Seu Repente para todos.
Uma delas, a Camila, havia chegado ao escritório há apenas dois dias, sem conhecer a figurinha, rebate chocada:
- Que acidente?! – indagou chocada.
- Éeeeeee. O carro veio e pegou nela em cima e pá. - disse o Seu Repente.
Enquanto isso, a novata, ainda pasma, esperava a continuação da história:
– É. O carro veio e pá...aí ela ficou se batendo na rua. - repete ele.
– Quem era ela Seu Repente? - pergunta Camila.
- Ahhh...a pombinha! - e começa e rir sem parar.
No meio da narração da história, enquanto contava, Patrícia ria sozinha ao se lembrar do fato e de todos os outros que já presenciou ali, com dois anos de empresa e um de escritório na Dr. Barros Monteiro. E repetia sempre “tem várias, tem várias”.
E ela continua no campo da memória (cena 2):
- E a hora em que o povo para pra perguntar o nome das ruas pro Seu Repente? É muito engraçado. Tipo “onde é a Joana de Gusmão?”, perguntam. E ele fala “conheço essa senhora não!!!”. Ou perguntam “onde é a Camargo Paes?”, aí demora um pouquinho e ele “ahhhhhh, ele sim é um senhor muito bom, bom de coração ele viu”. – E fica rindo ao dizer que essas são as melhores.
A rotina da rua, à noite é bem diferente. Apenas as lâmpadas dos postes do Seu Repente ficam acesas, e algumas poucas das casas maduras e verdes. Poucos passam por ali, muitos dizem ser uma região perigosa por conta do Bosque dos Alemães que é “mal freqüentado” e pelo pessoal residente à área junto da antiga estação da Mogiana, ali perto.
Morava. FAMÍLIAS TÊM 10 DIAS PARA DESOCUPAR ÁREA EM CAMPINAS. Pá. Manchete escancarada nos jornais da Região Metropolitana de Campinas. Muito prazer, essa é a RMC - 2 milhões de habitantes que habitam os habitats naturais escolhidos ou sem escolhas. As 110 famílias moradoras do terreno no Guanabara foram notificadas pela justiça que deveriam desocupar o local dentro de dez dias, contando a partir do dia 6 de julho de 2009. O terreno pertence a uma faculdade particular. E as famílias? Sem rumo.
Mas às vezes o movimento ali, na Dr. Barros Monteiro, é maior por conta dos cultos da Igreja de Cristo Guanabara. São dois horários: aos domingos, às 9h30, e às quintas, às 19h30. Quando tem curso, o dono da rua também trabalha a noite. É lá que ele guarda a cadeira, os panos, e ganha uma ajudinha por mês e também toma um cafezinho. Lá, na igreja do Novo Testamento sede Guanabara, o cabeça é Cristo. Foi o que o secretário Márcio Gama contou.
- Nenhuma sede da nossa igreja tem fundador. Não tem Calvino, não tem nenhum nome. Todas foram fundadas pelo cabeça, que é Cristo.
E é por isso que as sedes são independentes.
Porque o cabeça é Cristo.
Mais de 5 Cristo em 10 minutos.
Se o dia amanhece sol, e depois o plúmbeo começa a chover, o Seu Repente descola um guarda-chuva daqueles de sol de praia, com listras em vários tons de azul. Acompanha até a porta do carro, faz a gentileza sempre, trabalha mais algumas horas, e se os pingos formarem enxurradas, é hora de ir embora. Se o sol não sai logo cedo, e o bom dia não aparece, é porque fica impossível trabalhar. Onde ele mora, não dá para sair de casa com chuva. Impossível chegar até o ponto de ônibus porque a região é inteira de barro e barro molhado é sinônimo de impossibilidades. Fica-se ilhado, sem perspectiva de trabalho no dia.
Significado disso? Prejuízo. O ganha-ganha-corre-corre do dia depende do tempo, tempo não cronológico, tempo da natureza que ninguém controla. Então é menos dezvintetrintaquarentaetantos reais no mês. Nessas e outras, falta tudo em casa. A esposa não trabalha mesmo, a filha de 6 anos precisa ir para a escola, e a outra de 11 anos precisa receber a pensão ao final do mês. Então, São Pedro, coopera, coopera por favor porque além de tudo a pneumonia está dominando os pulmões da esposa do Seu Repente. Esposa essa, quarta no ranking de juntação. O galanteador, além de um rosto com traços da mistura de brasilidade, deve saber muito bem como conquistá-las. Afinal, chegar até a quarta é um grande trunfo. Não usa aliança não, mas o compromisso Homem-Pai-de-Família levar o dinheiro para casa é dele, apenas dele. E por honra ao mérito merece mais de milhões de estrelas e troféus porque além de ser brasileiro, homem, morar em área de risco, ganhar pouco, ter parado de estudar no terceiro ano, não tira o sorriso do rosto, os versinhos da língua e o bom dia da voz.
- Bom dia, Seu Repente.
A esposa do Seu Repente faleceu uma semana depois da conclusão deste texto. A morte foi anunciada com muita tristeza e lágrimas após uma pergunta, a resposta seca: “Morreu”. Duas semanas de tristeza nos olhos mas a vida continuou e ele também. Sorrindo.
* Jornalista e pós-graduanda em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário (www.abjl.org.br), turma São Paulo 2009.
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