TextoVivo - Narrativas da vida real

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27/10/2009 | enviar a um amigo | imprimir | a-   a+

O ermitão do Mendanha




Bruna Mastrella *


Um homem de fina estampa. Barba feita, cabelos aparados, banho tomado. Palavras oferecidas com a mais perfeita articulação e um “carioqueix” estridente.  Muita gentileza e fino trato. Aguçada dose de erudição autodidata. Eremita convicto apadrinhado pelas matas. Sincretismo pujante e abertura de espírito. Pavio curto. Explosão. Perigo!

Na verdade, acho de melhor trazê-lo à tona como o “lelé da cuca”, “pinel”, “o louco”. Classificações indelicadas que ouvi por aí, mas que, até certo ponto, resumem um pouco de todos nós. É sobre a razão, as paixões e o significado da vida que quero falar. 

Edson Guimarães nasceu pagão em terra de cristão. Saiu do ventre da índia Raimunda da Silva Santana, que largou o povo da tribo urubu ka’apor, já reduzido pela perseguição dos “homens civilizados”, para viver de amor. Se apaixonou pelo caboclo José Guimarães, marinheiro e estivador que atravessava rios e mares a bordo de navios cargueiros, e com ele veio viver em Nilópolis, município da Baixada Fluminense, no subúrbio do Rio de Janeiro.

Atirado, o tal marinheiro não temeu a notória valentia dos urubus e quis logo se aproximar da indiazinha de 15 anos. Puxou conversa, mas 130 pares de olhos de 130 bravos guerreiros não permitiram a aproximação. A negociação não seria fácil, mas, ardiloso, José passou dessa fácil.

Raimunda foi para a cidade. Porém, desacostumada com o tal do bicho carro e com as árvores de concreto, além da ausência do marido-viajante, em pouco tempo se desgostou da vida. Sobrou para o pequeno Edson, com apenas oito meses. Subnutrição grave. “Me deram como morto”, conta. Vendo o filho prestes a deixá-la também, Raimunda pediu socorro aos vizinhos.

- Chamem o pajé dos brancos!

Quem acudiu foi Dilarimar Gomes de Oliveira, ginecologista e obstetra que logo restabeleceu a saúde do pequeno. Dos cuidados com o paciente surgiu uma forte empatia. Raimunda, que já estava mais pra lá do que pra cá, delegou à doutora os cuidados do filho meio-índio. Cortou, em definitivo, os laços demétricos que os unia, e mais que depressa regressou à tribo urubu, que desde 1910 se estabelecera para as bandas do Maranhão. Seu pai, cacique da aldeia, ordenou-lhe que deixasse um legado para o filho desgarrado. Enviou-lhe uma garrafa lacrada, trazida por três bravíssimos guerreiros urubus ao Rio de Janeiro.

A chegada desta espécie de urna no prédio onde Dilarimar vivia com o pequeno Edson causou rebuliço na vizinhança. As bocas ávidas logo disseram aos olhos curiosos se tratar de uma garrafa cheia de ouro. Mas para o principal interessado a versão era bem outra: o objeto encantado lhe traria vigor para chegar aos cem anos. Do que era feita? Ele nunca soube. Nem mesmo vira a tal garrafa, mas jura de pé-junto que ela existe, só não sabe onde foi parar.

É que de assuntos de “gente grande”, o então garoto só ficava sabendo quando os buracos das fechaduras lhe contavam. Um espião mirim à procura de vestígios da própria história, da própria origem. Doutora Dilarimar, como Edson se refere, era austera, rígida, mas de generosidade adocicada. Dada a poucas demonstrações de carinho, para transmitir afeto valia-se de bons exemplos morais e virtuosidade. Afagos e consolo ele e a irmã, Ana Virgínia, também adotada, recebiam de Maria Vitória, doméstica da casa e a quem chamavam de mãe.

Do pai, andarilho das águas, as notícias eram escassas. Quando tinha dois anos, o errante marinheiro se foi para sempre. Os detalhes ele soube aos oito anos, quando as paredes lhe sussurraram algo mais que fantástico.

Meu pai vivia em navios que transportavam coisas do mundo todo para o mundo todo. Secos e molhados. A última embarcação em que trabalhou foi o navio Magdalena, que era da Líbia. Mas na noite de 24 de abril de 1949, bateu numa mina que explodiu quase tudo. Foi no litoral carioca, perto da Baía de Guanabara. Teve pedaço que foi parar lá em Niterói. Havia 34 tripulantes. A mina foi obra dos americanos. Sabe como é... deixaram como armadilha pra arrasar com os alemães. O corpo do meu pai, nunca encontraram. Afundou nas águas.

Tal como as miragens do deserto e a cólera desenfreada, os sussurros são ardilosos que só vendo. Mensagens decifradas atrás das portas soam como mentira travestida de verdade convincente ou como fruta vistosa com gosto de fel. Durante algumas pesquisas, descubro que, na verdade, o navio Magdalena era inglês, e que não transportava brasileiros, muito menos tripulantes. Considerado o ‘Titanic brasileiro’, o navio se partiu ao meio ao bater contra um rochedo. Quem me conta é Marcello Ferrari, um dos maiores especialistas brasileiros em naufrágios.


No alto do morro

Para Edson, o ontem está bem conservado em forma de lembranças que não passam de imagens bonitas, algumas divertidas, mas que se mantém resignadas com a categoria “já foi e não volta mais”. Nostalgia nem pensar. O futuro? A Deus pertence. Seu tempo é hoje. E é desta fase que ele diz mais gostar.

Edson vive numa casa de pedras. De todos os tipos e tamanhos, empilhadas uma a uma, num trabalho de paciência e cálculo – pois quando encaixadas não podem ceder à ira das chuvas e ao capricho dos ventos.  Um palacete, como assim lhe parece. Uma mini-gruta úmida, estranha, de fazer dó, como assim parece a todos os outros moradores da redondeza. O polêmico refúgio pétreo foi erguido no alto do Morro do Mendanha, tido como o maior acidente geográfico de Goiânia, a 841 metros de altitude em relação ao nível do mar. Ainda que bastante urbanizado e entrecortado por recentes loteamentos, garante a mais bela visão panorâmica da cidade. Pois é lá, num dos poucos pontos do morro onde há cerradão fechado, no terreno pertencente ao Clube Monte Líbano de Goiás, que ele vive. Depois de umas andanças pelo interior de Goiás é que ficou, em definitivo, no local onde está. Já se passaram 12 anos. De invasor tornou-se um tipo de hóspede vitalício.

Uma trilha quase imperceptível é a porta de entrada. São cerca de 200 metros tomados por capim braquiária que chega aos joelhos. No horizonte não se vê nada além de árvores, cipós e galhos retorcidos. No chão, carcaças de gado de corte, frango e até cavalos largadas clandestinamente. O cheiro acre exalado pelas peças em decomposição, algumas tomadas por vermes e enormes moscas varejeiras, é medonho e repulsivo.  PROIBIDA A ENTRADA DE ESTRANHOS – “é o que deveria constar na entrada da trilha”, pensei.

À direita uma cerca de arame farpado coberta por roupas recém-lavadas denunciam a presença do ilustre morador. Passando com cuidado por debaixo da cerca chega-se a uma clareira rodeada por árvores enormes. À esquerda uma mini-casinha de pedras com quase dois metros de comprimento e não mais que um metro de altura, de modo que para adentrá-la, é preciso se agachar. O solo é forrado com lonas plásticas que servem de impermeabilizante, e um carpete para simular um pouco de conforto. Local de repouso, mas que também abrigam livros antigos, uma bíblia sagrada, um pente pequeno, um espelhinho de moldura alaranjada e um rádio à pilha.

Ao centro da clareira, uma mini-torre de apenas um metro, também de pedras, serve de abrigo para mantimentos – arroz, feijão, sal, óleo, fósforos. À direta, uma espécie de fogareiro feito, claro, de pedras dispostas em círculo. No centro, latinhas cheias de álcool que garantem o fogo para preparar comida. Mais adiante, a uns cinco metros da gruta-dormitório, outro empilhado de pedras um tanto deslocado, “desconectado” do restante do “cenário”. Aparentemente sem nenhum apelo funcional, o amontoado tornou-se mural de lembrança, altar de bibelôs deixados por amigos, estante de esculturas de ‘arte pós-moderna’, cantinho de contemplação. Da clareira não se vê o sol por causa da copa das árvores, apenas feixes luminosos que tocam o solo em uns poucos pontos. O cheiro de terra molhada é forte em razão das chuvas permanentes de fevereiro, o que propicia a reprodução de pernilongos gigantes sedentos de sangue. As cigarras cantam entusiasmadas e muitos pássaros gorjeiam. Coleirinha, canários, pombinhas do bando desfilam nos céus por entre as borboletas.

Estar com Edson é botar em xeque nossas próprias ‘necessidades’. É questionar a real dimensão de utilidade de adventos considerados imprescindíveis atualmente, e que, de tão incorporadas ao nosso cotidiano, parecem parte de nós mesmos. Moléculas de oxigênio. Energia elétrica, chuveiro com água quente, fogão a gás, carro, gasolina, celular, iPod, computador, pent-drive, embalagens plásticas

“Meu Deus! Como é que alguém pode viver sem uma geladeira? Nossa, e sem televisão? Coitado”, lamentou minha tia ao saber de meu novo amigo. “É um excluído. É tão pobre que não teve outro jeito a não ser virar mendigo!”, concluiu meu pai. “Com certeza é louco porque ninguém viveria assim se não fosse forçado”, diagnosticou minha mãe.

De dentro de seu castelo de pedras, Edson dá de ombros aos comentários alheios, embora, no fundo, perceba a curiosidade que sua trajetória exerce nas pessoas. Parece não se importar com a pergunta-clichê que inevitavelmente lhe fazem ao saber de sua história nada convencional. No fundo, se diverte. Gosta de prosear sobre a vida, sobre os feitos do passado, a rotina metódica, os cuidados com o corpo e a mente, e até sobre o gênio explosivo. Edson, afinal de contas, como você veio parar aqui?


Iê-iê-iê

O sol está a pino e a água do mar, geladíssima. Menininhas de maiô desfilam pelo calçadão, ambulantes vendem água de coco e carolas fazem o Nome do Pai. Boyzinhos de terninho à la Beatles e gomalina nos cabelos circulam em lambretas barulhentas para ver os brotinhos de minissaia. Nas matinês os jovens curtem Renato e Seus Blue Caps, enquanto uma turma de cabeludos e topetes rockabilly se tranca em garagens para produzir um som. Edson, um garoto franzino e extrovertido sem tanto queria ser um rock star. Sozinho, aprendeu a tirar notas do baixo. Pouco, mas o suficiente para montar o sexteto Blue Matter. Ele, Haroldo, Robson, Franklyn, Artur e Beto se conheceram no Colégio Abel Lassale, fundado por padres italianos.

Foi onde Edson aprendeu as primeiras letras, mas acabou não tomando gosto pelos estudos, a não ser pelas aulas de inglês e leitura de romances policiais. Com muita peleja, concluiu o 3º ano do ginásio – equivalente ao oitavo ano do Ensino Fundamental. “Era playboyzinho messmo. Com tanto sol, mar, mesada no bolso e a cidade maravilhosa a apenas 40 quilômetros, era mesmo difícil se prender às lidas de ‘gente grande’. Nos idos de 1960, não havia golpe de Estado, guerrilhas armadas, organizações esquerdistas revolucionárias ou movimento de contracultura que o tirasse do esquema ‘viver como se não houvesse amanhã’. Queria mais é descobrir que banda era aquela que escandalizava a Inglaterra com apologia a sexo, rebeldia e diversão ou soltar o pensamento na escolha do repertório para a serenata.

“Então eu corro demais/ Sofro demais, corro demais/ Só pra te ver, meu bem”, cantarola, ao se lembrar da moreninha do andar de cima.

Sem aprovar a ociosidade improdutiva do filho caçula, Dilarimar mandou-lhe para o Exército. Preparou-se para a ira, o falatório sem fim. Inexplicavelmente o rebelde não se opôs. Não esbravejou, não deu chilique. Foi lotado na Bateria de Comando de Serviço – repartição destinada ao armazenamento e controle de munição aérea e aquática. Para espanto de muitos, adaptou-se bem à disciplina militar, à rotina ferro e fogo, mas não conseguiu controlar os nervos a contento. Enfrentava até oficial. Eu podia estar errado que, se viessem me dar lição de moral...ah, ouvia o que queria e o que não queria (risos).” Distribuía desaforos aos montes, não importava a patente do ouvinte.

Em 1967 venceu seu tempo de Exército. Enquanto no ar circulava o pressentimento de revoluções sociais que varreriam o ocidente no ano seguinte, Edson só pensava em digerir as mudanças que a experiência militar instalara em seu espírito. Clichê à parte, a jornada modelou aspectos de sua personalidade. “Aprendi a ser homem. Comecei a dar valor ao trabalho”, garante.

A musicalidade se manteve, e com ela os ensaios da Blue Matter foram retomados – agora com mais intensidade e influência de roque progressivo. As imitações simples de Pink Floyd, Genesis, Yes, Jimi Hendrix, pitadas de Beatles e Rolling Stones, deram espaço a covers do andrógeno e demoníaco Alice Cooper. Tudo caracterizado: roupas negras e perucas longas, roque pesado e furioso. Dilarimar desta vez, conseguiu uma colocação para o filho roqueiro no Banerj. Cinco anos se passaram até que...

“Um xará fez uma brincadeira comigo e eu descontei, mas ele não aceitou. Um apelão hááá! Começou uma discussão e eu perdi a cabeça. Arremessei uma máquina de escrever Olivetti contra ele. Por sorte não o atingiu. Demissão na certa!!” 


Transamazônica

Em 1973 uma ousada construção continuava despontando no Planalto Central. No Brasil, uma nova capital. Edson rumou para Brasília logo após o enfarto fulminante da ‘doutora’. Lá vivia a irmã, que fora acompanhar o marido, Dr. Felizola, assessor de gabinete de Mário Andreazza, ministro dos Transportes do general ditador Emílio Garrastazu Médici. O cunhado conseguiu-lhe uma vaga no extinto Departamento Nacional de Estrada e Rodagem (DNER), atual Dnit, como agente de portaria – designação tecnocrata para vigilante noturno. Fora lotado na rodovia Transamazônica, obra pretensiosa iniciada com a missão de integrar regiões longínquas do país ou, simplesmente para chamar atenção para “o milagre brasileiro”.

1ª parada: Itaituba, no Sudoeste do Pará. Incrustado na Floresta Amazônia e no rio Tapajós, o município se destacou por causa dos inúmeros garimpos. Lugar de manda-quem-pode-mais, pistoleiros e tocaias, de chão batido e mata verdejante, miséria sem fim. Edson tinha a missão de controlar o tráfego na rodovia, anotar placas de caminhões, checar carga, origem e destino, nota fiscal, hora de chegada e partida. “Era muito difícil. Aquilo era terra sem lei. Caminhoneiro chegava e não queria dar satisfação. Tive que me impor quase à força.” As dificuldades eram ainda maiores por causa do estranhamento que Edson causava aos habitantes. Um tipo exótico. Cabelos alvoroçados, jaquetas pretas de couro e, ao passar pelo de seu alojamento, riffs agudos do ídolo Jimi Page, do Led Zepellin, podiam ser ouvidos. Melodias enérgicas e pulsantes que ainda hoje são como bálsamo para o roqueiro das matas. 

A floresta fechada, traiçoeira, introjetou em Edson uma nova dimensão sensitivo-espiritual. Muito mais que redesenhar seus gostos de homem urbano, deu-lhe maior senso de percepção. O cheiro das folhas e do orvalho fresquinho o fizeram dialogar com os caprichos do tempo e do clima, enquanto as pegadas dos bichos, o ciclo de vida dos insetos, o amadurecimento dos frutos nas árvores, dotaram-no da intuição de sentir a presença de outrem – bicho, gente ou qualquer outra entidade. Lá deu vazão ao seu lado místico. Umbandista, aproveitava a vibração da mata para pedir à cabocla Jurema, sua mais estimada entidade.


De partida

Numa tarde de chuva, como são todas as outras em Itaituba, uma indiazinha munduruku se banhava no rio Tapajós. Os cabelos enormes tingiam as costas de negro cintilante. Com o canto dos olhos, ela consentia os olhares incisivos de Edson. Sem tempo para rodeios “Ceci e Peri”, o casal iniciou uma voluptuosa jornada. Não tardou para que a segunda Raimunda de sua vida sentisse um redemoinho no baixo ventre. Nove meses depois, um casal de gêmeos nascia, enquanto Edson recebia a incumbência de mudar de posto de trabalho.

- Conversei com o cacique da aldeia, pai de Raimunda, para explicar que tinha de ir. Ele entendeu.
- E o senhor partiu?
- Sim, mas antes tive de deixar uma foto 4x7 pra que os gêmeos conhecessem o pai deles. Simples assim? ‘Como um pai pode deixar um filho? Um não, dois’, pensei.
- O senhor sente falta deles?
- Não.

Enquanto divago, Edson prolonga o assunto. Num tom de voz sereno e tranquilo, de alguém que dorme o sono dos justos, ele explica: “Para os mundurukus, vida é vida, não importa quem a gerou, e vida continuará sendo aonde quer que esteja, se perto dos pais ou não. Não tem esse negócio de figura do pai. A tribo é cheia de gente e lá há exemplos de sobra para seguir”. Ruborizados, eu e meu etnocentrismo imbecil nos calamos.

Edson rumou para Marabá, também no Pará, cidade do encontro dos rios Tocantins e Itacaiunas, para ensinar o serviço aos novatos. Trabalho concluído e uma nova remoção: Castanho, no Amazonas, entre Manaus e Porto Velho. Era 1979 e por lá ficou até 1981. O já ‘trintão’ aguardava com ansiedade o recebimento do salário para se esbaldar na Zona Franca de Manaus, onde comprava, a preços menores, LP’s do Led Zeppelin, Black Sabbath, AC DC, Dire Straits, The Doors. “Tempos bons, háááá”, lembra, com uma gargalhada ensurdecedora. A diversão também incluía uma estada rápida com as “primas”, prostitutas dos garimpos, mas seus esforços afetivos recaíam sobre as índias das aldeias próximas. Com elas ele nunca mais se deitou desde que partiu de Castanho. Vivia sob estados de tensão que se prolongavam nas horas de descanso, açoitando o sono e estimulando sentimentos em descompasso. Isolamento. Fuga da realidade.

O DNER tratou de remanejá-lo para Paraíso do Norte, ainda pertencente ao Estado de Goiás, hoje situado no Tocantins, para conservar a BR-319. A cidade despontou na década de 1930 por causa dos garimpos de cristal de rocha e quartzo. Já nos idos de 1980, apesar de exauridas as minas, a atividade ainda permanecia. Edson novamente encontrou a mesma tragédia social: pessoas maltrapilhas, cheias de sonhos dourados, mas que se tornam desbotados com o tempo. Ficou até 1987, quando o nervosismo implacável já não mais se continha e os arrufos com os colegas eram frequentes. Um purgatório de pensamentos ruins. Medo de gente.

Sem que soubesse, uma tarde de sol escaldante redesenharia sua vida. “Perdi a cabeça durante uma discussão. Consegui ergui um motor de caminhão, de uns 50 quilos, e atirei no Luiz, um maranhense muito do metido. Por sorte ele se afastou e a peça atingiu somente as pontas da botina dele”, lembra, com cara de quem não crê como fora capaz de tal investida. Uma centelhinha de nada, mas que para Edson alcançava ares de ofensa moral imperdoável. Enxergava o que não tinha matéria, ouvia o que não era dito. O que era real? E o que não era? Perdia a noção dos fatos, e enrolava-se em devaneios de ira, cuspia fogo e soltava veneno pelos olhos. A ficha azul, dedicada a anotações sobre o comportamento dos funcionários, no seu caso já não tinha mais como ser preenchida. Indisciplina, rebeldia, descontrole emocional. O fato é que ele teve de esperar a vinda de uma junta médica, que pediu sua aposentadoria. Aos 38 anos de idade. “Quando chegaram, me olharam de um jeito... ‘É louco’, pensaram. Percebi. Telepatia”, diz, com olhos nervosos e voz solene.

Com o afastamento oficial Edson veio para Goiânia. “Fiquei três meses numa clínica psiquiátrica. Um estranho no ninho...” Pílulas calmantes intercaladas com jogos de xadrez e dama. “Sabe que foi até bom? O doutor Salomão era gente fina. Não me dava choque. No DNER se o funcionário não comete homicídio no plantão, mas tem mau comportamento, é aposentado por invalidez”, explica Edson. No seu caso, o motivo do afastamento foi confirmado: esquizofrenia, doença mental não totalmente desvendada marcada por um processo de desordenamento dos processos mentais. Em surtos agudos, o portador tem alucinações, delírios, pensamento desorganizado, alterações emocionais e comportamentais enormes. Euforia ou apatia, agressividade, indiferença, discurso ilógico.

Pouco tempo antes, um simples sinal de afronta significaria o início de uma guerra de foice para Edson, mas agora não... Esquizofrenia. E ele conta como se tivesse recebido um diagnóstico de cárie ou uma inflamação no dedão do pé. “Continuo vivendo”, diz. Encostado pelo extinto Instituto Nacional de Previdência Social (INPS), a aposentadoria só saiu três anos depois, em 1991. Se antes ganhava o mesmo que um delegado, teve de se contentar com um salário mínimo. Anos de instabilidade seguiram-se. Morou num quarto-e-sala, viveu de biscoitos e água para não passar fome, mudou-se pra Itaberaí, banhou-se no Rio das Pedras, viveu no meio do cerrado, atraiu olhares hostis. Voltou pra Goiânia, subiu o Morro do Mendanha e de lá não sai mais.


Vida monástica

São 61 anos completos, embora sempre ao dizer a idade ele acrescente que os 62 estão por vir em agosto, ainda que não seja razoável que alguém lhe dê mais que 50. As rugas e linhas de expressão são escassas, mais concentradas nas extremidades dos olhos. Os lábios são bem finos e o queixo um pouco projetado. O cabelo grisalho, inquieto, de raiz lisa, mas encaracolado nas pontas, é emoldurado por costeletas generosas que chegam à metade das bochechas. Suas roupas são puídas e seus pés estão quase sempre descalços sobre a terra úmida. Porém, tamanha é a retidão corporal que o vejo metido num meio-fraque bem cortado. A pele é morena com tom avermelhado, e quase não há pelos no corpo. Membros longos e delgados em harmonia com apenas 59 quilos distribuídos em 1,68m de altura. Vangloria-se do baixo índice de gordura corporal e o justifica como conseqüência da rotina espartana.

Seu dia começa às 6 horas. Uma mistura de açúcar com pouquíssimo pó de café apenas para deixar a água castanha é todo seu desjejum. “Café normal não posso. Me ataca os nervos e não durmo.” Em seguida, caminha 260 metros até uma mina d’água. Toma banho e faz a barba, enche cinco garrafas PET, mais de 2 litros ao dia para beber, e o restante para tarefas domésticas. Em seguida, todo seu tempo é preenchido com leituras. Revistas e, especialmente, romances policiais. Frederick Forsyth, Edgar Alan Poe, Agatha Christie são seus prediletos, mas há espaço para Willian Shakespeare e a Bíblia, seu best-seller.  O almoço sai às 12h30. Arroz e feijão, que ele mesmo prepara, farinha e molho de pimenta. Carne só uma vez por semana e tem de ser fígado. “É nutritivo e contém sais minerais”, ensina. À tarde, além das leituras, às vezes vai ao mercadinho de seu Fausto comprar mantimentos, ou dedilha o violão de duas cordas só. Usa peças retiradas de carro como peso nos exercícios físicos. Também faz flexões e carrega pedras para enrijecer as pernas. Uma vez por mês, retira a aposentadoria. No cair da noite, liga o rádio para ouvir a Voz do Brasil. Às quartas e domingos, acompanha o futebol. “Meeengooo!!!!”


Fugir para se achar

Algumas pessoas vivem como se não merecessem ser amadas. Outras acreditam ser inútil buscar a felicidade nas relações humanas. Há, ainda, um terceiro grupo que não pensa em nenhuma coisa nem outra. Envenenados pela sociedade, buscam no recolhimento individual uma forma de purificar o espírito. É se afastando que demonstram o máximo de generosidade, de altruísmo para o bem comum, além de manterem a própria sanidade. Para o filósofo francês Gastón Bachelard, o homem solitário descobre a voz do acolhimento em seus espaços mínimos e até o sentido da vida em símbolos de seu dia a dia.
Desde o diagnóstico de esquizofrenia, Edson não procura ajuda médica especializada e nem faz nenhum tipo de terapia. Dois comprimidos Diazepan 10 mg diários resumem todo o controle que faz dos surtos. Os sinais desse hábito estão por todos os cantos de sua casa – há duas pilhas de quase meio metro de embalagens vazias do remédio que ele consome com uma intransigência xiita. Para mim, indício de dependência química, mas, para ele, um ritual de cuidado. Gosta de atribuir o controle da doença à vida monástica.

Dizem que fugi do mundo. É verdade. Preciso do silêncio, da privacidade, do isolamento para as leituras. Na cidade seria impossível. Meu gênio explode, sou bruto, nervoso. Por isso não posso conviver com ninguém e não constituí família. Será que eu tinha o direito de fazer isso? De casar com uma menina de família pra depois desgraçar a vida dela, fazer ofensa, escândalo? Reconheci esse meu lado. Gosto do meu canto, isso aqui é meu submarino, meu sonar. Não me apego à matéria, que com o tempo vira um túnel infinito.. O rei Salomão teve 700 esposas e 300 concubinas e tudo mais que se possa imaginar, mas nada daquilo teve valor embaixo do sol a não ser a sabedoria.. Então por que haveria de me sentir pobre, se tenho a bíblia, minha bússola, e o roque, que libera os pensamentos?!? Sou rico!

Edson não tem convivas. Se relaciona com os que vêm até ele, e quem vem todos os dias é Xaninho e Xaninha, um casal de gatos preguiçosos que ronronam sem parar. Com um sorriso desconfiado, aponta uma exceção como
se confessasse algo que merecesse a penumbra. “Às vezes procuro umas primas”, diz, se referindo aos dias em que deseja sexo de fêmea. Após a morte da mãe, perdeu o contato com a irmã. Menciono o assunto. Edson se desvencilha, não formula idéias razoáveis para a perda do último elo familiar. Se esconde em semblantes de dúvida. Num sobressalto ele se abre. Por intermédio do amigo Kadu, conseguiu reencontrar a irmã que não via há 30 anos. Viúva e mãe de dois filhos, continua vivendo em Brasília. Entre risos nervosos, Edson relembra o reencontro.

Kadu me levou pro apartamento dela. Meus sobrinhos me abraçaram. Fiquei emocionado, chorei, abracei forte a Ana. ‘Ô minha irmã, quanto tempo!’. Ela ficou séria, os músculos enrijeceram. Saquei que ela não esperava que eu aparecesse. Fiz uma leitura psicológica. Com a morte da doutora, não fui atrás de inventário, e olha que ela tinha muitos bens. Ela disse que me deu como morto. Acho que o medo de que eu questionasse minha parte da herança causou esse estranhamento, dureza no corpo. Deixei quieto. Não toco no assunto. Às vezes vou a Brasília. Fico uns dias no apartamento da Ana, que tenta me agradar, mas não gosto de jaula de concreto. Ela está com câncer de cólon. Liguei para dar assistência. Pela voz percebi que ela se assustou. Não me deixou vê-la, disse pra ir em junho. Tá limitando minha presença, sacou? Não me quer por perto.

- Em alguma circunstância o senhor voltaria a viver na cidade?
- Humm...pensa, coça a cabeça. Só se a casa tivesse isolamento acústico. Fosse revestida com placas de isopor...alguma coisa assim.
- Então é o barulho que te incomoda?
- Ele e quem o faz também.
- Perdeu a fé nas pessoas?
- Não, não deixei de gostar delas, mas prefiro a natureza, que coloca os pensamentos no lugar.
- Pensa na morte?
- Não, mas estou preparado para quando chegar. Superei esse medo bobo. É biológico: nascemos, crescemos e morremos, como as plantas. Quem não se apega não sofre.  Mas vou viver muito ainda. Será a garrafa? Há!

* Jornalista com pós-graduação em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário (www.abjl.org.br), turma Goiânia 2008.
r. general jardim, 618 / 51 - são paulo / sp + 55 11 3129-8320